Estava chegando em casa louco de vontade de se estirar no sofá. Tinha acabado de receber a notícia do fracasso num teste para revisor de textos, emprego que salvaria aquela “vidinha mansa” que vinha levando. Faria os próprios horários, trabalharia somente o necessário para pagar as contas. Planos... a verdade é que continuava desempregado e era questão de dias para que os últimos cinqüenta reais acabassem e vencesse o aluguel: ou voltava para casa dos pais ou ficava pela rua. Tinha, ainda, um final de semana pela frente para resolver isso, mas no momento só queria se estirar no sofá, comer qualquer coisa, quem sabe chorar um pouco e, depois disso, ser presenteado com algumas horas de sono.
Caminhava, o calor repentino daquele começo de tarde fazia-o suar dentro das blusas todas que a manhã nublada o fizera vestir, mas que o sol do momento queria obrigá-lo a tirar. Não, só tiraria todas aquelas blusas quando pudesse se esticar no sofá, a última esperança de conforto. Pelas calçadas cheias de gente veio colecionando esbarrões. Está com fome: não teve tempo de tomar café da manhã; pensa fixamente no bife que sobrou de ontem e que está perfumando a geladeira nesse exato momento. Dentro de cinco minutos estará na companhia desse bife, no sofá. Seria entrar em casa, arrancar aquelas blusas, agarrar o bife, deitar, tirar os sapatos comer e adormecer com restos nos dentes.
Passa pelos pedreiros barulhentos que refazem a calçada da sua rua e eis que chega diante da porta de casa, nervoso, com movimentos algo descontrolados chutando uma pedra que, por desgracioso acaso, decola e acaba trincando um dos vidros da porta – merda! –, arranca a chave do bolso machucando os dedos e causando pequeno rasgo na calça – entrouxa a chave na fechadura, que já há um mês pede conserto, e, como não podia deixar de ser, fica com metade da chave na mão chacoalhante e metade na fechadura – grita, sapateia e dispara seqüencia de chutes que quebra vidros e entorta, um pouco mais, a porta. Quer chorar, isso provoca mais raiva. Corre até os pedreiros, rouba-lhes uma pá e, como uma besta, destrói trinco, fechadura e metade da porta. Arremessa a pá de volta na direção dos pedreiros e avança para geladeira enquanto bate o quadril na quina da mesa tirando as blusas com violência e querendo esquecer o seu dia até ali. Arranca o bife da geladeira e, se dirige para o sofá com o bife na mão, tira os sapatos pisando nos calcanhares, deita-se encolhido, choraminga – chupa e morde o bife gelado. Os olhos embaçados fixos na parede.
9.11.09
Para descansar
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4 comentários:
O clímax ainda tá muito clímax pro meu gosto de revisora de textos.
conversemos na fila do RU.
o fm desse tá dalton trevisan
deitou pra descansar como se fosse sábadoooOOOooOo
os olhos embaçados de cimento e lágrimaaaaaaas
Chupou o bife tal como se fosse uma minaaaaaa
dormiu lá no sofá atrapalhando o trânsitoooOOO
hahaha
n,
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