7.10.09

Minha HP Photosmart 3180 All-in-One

Lembranças da minha HP Photosmart 3180 All-in-One

Tínhamos uma boa relação. Comprei a impressora quando ela era lançamento. Paguei caro, mas na época eu tinha me resolvido a investir nisso porque a impressora que eu tinha antes da HP Photosmart 3180 All-in-One e que ficou cinco anos comigo, havia me dado muitas dores de cabeça, principalmente no último ano. Na época da compra eu tive certeza de que, comemorados os quatro anos juntos (exatamente quatro anos), tudo que restava fazer com a HP Photosmart 3180 All-in-One era terminar o relacionamento e jogá-la. Mal sabia eu o tamanho da ilusão que eu estava criando para mim mesmo. Hoje, refletindo melhor, não sei como não pude perceber que meu relacionamento com a então novíssima HP Photosmart 3180 All-in-One estava totalmente degradado já no meio do segundo ano de convivência (exatamente no sexto mês do segundo ano): em nossos tempos, a durabilidade dos produtos cai a cada dia, eu devia saber disso! O único motivo que encontro para que eu não tenha percebido a degradação da HP Photosmart 3180 All-in-One é o fato de que, no fim do meu relacionamento com a impressora anterior, eu tinha perdido a inscrição de um concurso (que era muito importante para mim), justamente porque, tendo deixado para última hora e não tendo conseguido imprimir um maldito formulário em casa graças aos chiliques da desgraçada, não consegui chegar até os correios a tempo com toda papelada. A impressora, uma HP Deskjet 692C, tinha acabado de passar por uma revisão (das muitas) que tinha me feito gastar ¼ do valor dela e ela me deixava na mão daquele jeito... Eu estava arrasado, fiquei uma semana deprimido, até que chegou, entregue à domicílio, a HP Photosmart 3180 All-in-One. Eu passei a não gastar mais a meia hora de praxe para conseguir imprimir qualquer duas páginas. A impressora nova foi uma dádiva naquele momento, ela me devolveu a oportunidade de tomar café antes de sair de casa mesmo nos dias em que eu resolvia, antes de sair, fazer cópia de uma notícia que eu queria ler no ônibus a caminho do trabalho. Eu fiz as pazes com o mundo da tecnologia rapidinho. Sair de uma HP Deskjet 692C para uma HP Photosmart 3180 All-in-One era o mesmo que sair do inferno para o paraíso sem perder tempo no purgatório. Minha alegria só aumentou durante os primeiros oito meses. Era como se eu estivesse, por oito meses, em lua de mel. Adorava ostentar por aí papéis impressos pela minha impressora. Cheguei a recomendar para muita gente que comprassem uma igual. A relação com ela era tranquilíssima: quando alguma coisa estava errada, logo ela enviava mensagens deixando claro qual era o problema; dizia: “A impressora está sem papel”, “A tampa está aberta” ou “Verifique se não houve atolamento”. Sempre gostei de clareza nos relacionamentos, eu estava encantando. Foram oito lindos meses que fizeram esquecer que impressoras também envelhecem e degradam, como acontece também com os corpos dos seres vivos. Ali pelo nono mês ela deu de puxar duas folhas ao mesmo tempo, por exemplo. Deu também de, vez ou outra, devolver alguma folha com um amassadinho na ponta, mas, perto do que eu tinha passado com a outra, isso não era nada, fiquei um pouco chateado, mas fui compreensivo, todos tem seus dias ruins nessa vida e, além do mais, os probleminhas que ela estava apresentando não eram muito graves. O problema foi que entrei nesse ritmo de aceitar todos os “pequenos problemas” que o relacionamento foi apresentando e quando chegamos ao terceiro mês do segundo ano do relacionamento, ela estava me deixando doente. Tomar café de manhã já não era mais possível, o caixilho atolava por qualquer coisa e a impressora insistia em imprimir uma folha-teste toda vez que eu a ligava. Hoje penso que eu devia ter chamado um técnico e assim poderia ter evitado tudo que depois me aconteceu, mas eu passei alguns meses fingindo que nada estava acontecendo, que se havia algo errado, era porque era natural dos relacionamentos serem assim – de altos e baixos – e que a HP Photosmart 3180 All-in-One tinha crédito comigo já que passara quase um ano sem me causar maiores desgastes emocionais. Mas foi essa falta de firmeza na condução do meu relacionamento com ela que me levou ao inferno que eu vivi do terceiro mês do segundo ano até o sexto mês daquele mesmo ano, fatídico ano. Atolamentos, folhas-teste impressas sem necessidade, o caixilho bambo, luzes que acendiam nas horas erradas, mensagens que mais me confundiam do que me esclareciam, folhas e mais folhas amassadas e botões que já não respondiam com a mesma prontidão do começo. Cheguei mesmo a machucar meus dedos de tirar sangue, um dia, tentando tirar os papéis que ela amassava e fazia travar todo funcionamento. Eu não tinha mais orgulho de uma folha sequer que ela pudesse imprimir, as letras vinham tremidas e os pequenos amassados nos cantos das folhas se tornaram verdadeiras dobras grotescas que, somadas às letras tremidas, resultavam em borrões que muitas vezes impossibilitavam a leitura de alguns trechos do texto que ia impresso. Olhando agora, à distância, percebo que a coisa não podia acabar bem, sempre fui temperamental e nunca soube comunicar aos envolvidos, de modo pacífico, que as coisas não iam bem. Eu tinha tendência a soltar todos os bichos subitamente, o que sempre assustou as mulheres com quem me envolvi, por exemplo. Com aquela impressora não podia ser diferente. Certo dia daquele sexto mês – e que dia maldito foi aquele – cheguei em casa exausto, tinha trabalhado o dia inteiro feito um cachorro, tinha engolido sapos o dia inteiro e ainda levei uma mijada do chefe: agora eu só queria descansar. Me servi uma dose de uísque e liguei o computador, queria escutar minhas músicas prediletas. Antes de o Windows carregar meu copo já estava vazio. Reparei nisso e pensei que ou o computador estava com vírus, ou meu corpo clamava pelos efeitos relaxantes da bebida. Enchi meu copo, voltei ao computador, fiz uma lista das músicas que queria escutar e me larguei no sofá. Eu estava orgulhoso de mim, estava conseguindo um momento relaxante, estava me presenteando com bem-estar a despeito de todos os inconvenientes no trabalho. Foi então que tive uma vontade ingênua de acompanhar a letra das músicas que escutava e vislumbrando o paraíso imaginei tudo exatamente como estava adicionando ao cenário, somente, duas folhas com as letras impressas para satisfazer a minha vontade. Levantei-me, abri os arquivos com as letras das músicas que queria ouvir e apertei o botão para ligar a impressora: nenhum sinal. Calmamente conferi os cabos, parecia que havia um deles meio solto, apertei o botão novamente e a impressora ligou, não sem fazer alguns barulhos desagradáveis e escandalosos, típicos da histeria desse tipo de máquina. Continuei o procedimento, conferi o papel e mandei imprimir as letras. “A impressora está sem papel”. Com gestos impacientes reacomodei os papéis e dei “ok”. A impressora soltou mais alguns grunhidos, acendeu algumas luzes a mais, puxou o papel da vez e o atolou em meio ao caixilho bambo. Fingi que nada acontecia, peguei meu copo de uísque, respirei, bebi de um gole o que restava nele, contemplei o céu do daquele belo crepúsculo, fiz-me o favor de encher meu copo, dei mais uma bebericada e fui resolver o atolamento. Tive que picotar a folha toda para resolver o inconveniente. Ajeitei tudo e realmente acreditei, naquele momento, que a partir dali tudo correria bem eu conseguiria imprimir as letras e acompanhar as minhas músicas prediletas. Ordenei, mais uma vez, que a escrava imprimisse os arquivos do meu desejo. Ouvi um estalo e logo em seguida vi a mensagem se repetir: “A impressora está sem papel”. Sim! Eu havia esquecido de recolocar as folhas. Corrigi meu erro, afobado, e dei o comando de impressão mais uma vez, logo percebi que havia esquecido de encerrar o último trabalho: a impressora não funcionava, como no começo, com dois comandos acumulados: tive que reiniciar o computador. O uísque me fez companhia durante a espera. O Windows reiniciou, abri os arquivos, refiz, apressado, a lista de músicas que tinha esquecido de salvar e solicitei a impressão; peguei meu copo de uísque e enquanto me virava para ir apreciar a noite que já havia se definido, escutei o atolamento de duas folhas a um só tempo (sim, eu sabia distinguir o barulho do atolamento de uma e de duas folhas). Me virei para o computador dando um tapa estrondoso na impressora; o descontrole do movimento fez uísque cair pelas frestas do monitor que começou a falhar, arranquei a tampa da impressora e às custas de cortar todos os dedos das mãos e fraturar alguns sanei o problema do atolamento, no chão ficou papel picado e sangue, dei ainda alguns murros na impressora fazendo a mão sangrar ainda mais: não sentia dor nenhuma, só percebi que tinha alguns dedos quebrados porque não tive articulações suficientes para juntar a tampa que havia arrancado com uma mão só. Ver meus dedos quebrados me enfureceu e, como resposta a isso, com uma das duas mãos, arranquei um dos pés da mesa; monitor, teclado e gabinete caíram no chão, o monitor começou a soltar fumaça e uma explosão fez um estilhaço da tela, certeiro, adentrar meu olho direito. Gritei de dor e raiva, mas só o grito de raiva permaneceu enquanto eu destruía a impressora usando o pé da mesa como porrete. Sentei no chão, chorei de raiva, concluí que precisava de ajuda e liguei para o porteiro pedindo que ele chamasse uma ambulância.

7 comentários:

gabriela disse...

porra, esse texto é seu ou você continua copiando coisas do velho continente? é bem do teu tipinho chamar a impressora de escrava, mas quero ter certeza do nome do autor. hahahaha

disse...

Estupendo! Eu tinha uma 692C. Mas passados 3 meses da compra da HP Photosmart C4400 series, nenhum inconveniente! Será que estou sendo inocente? huahuahuha

sanssouci disse...

Caro Gabriel Dória Rachal, antes de ligar para a ambulância, o senhor poderia ter ligado para o Suporte técnico 24 horas da HP e informado seus problemas com o uso de sua HP Photosmart 3180 All-in-One. Oferecemos a nossos usuários um serviço de análise psico-terapêutica, também 24 horas, com atendentes aptos a te orientar em primeiros socorros.

Anônimo disse...

Manual - como lidar com sua impressora:

www.youtube.com/watch?v=nfCYzJAgwrw

Marina disse...

Genial. É desse tipo de prazer que eu gosto: ler no monitor.

Netto Youssef disse...

Muito bom!

gabriela disse...

se me avisassem antes que era pra colocar link do youtube:
http://www.youtube.com/watch?v=REQRHdMRimw